Um país cansado, seis candidatos e nenhuma certeza
Lula e Flávio concentram a disputa, enquanto os demais candidatos tentam romper a lógica da polarização
Faltam poucos dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e a sensação é de que o Brasil chega às urnas mais cansado do que animado. A última pesquisa Quaest colocou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 41% em um eventual segundo turno, um empate técnico. Se ninguém alcançar a maioria dos votos válidos, a decisão fica para 25 de outubro. Entre os treze pedidos de registro que chegaram ao TSE, seis nomes ocupam o debate - mas será que algum empolga?
Lula (PT)
Aos 80 anos, o ex-metalúrgico e fundador do PT busca o quarto mandato, o segundo consecutivo a esta altura da vida política, com Geraldo Alckmin (PSB) de vice. Seu histórico é conhecido: presidente entre 2003 e 2010, preso em 2018 e solto depois de o STF anular as condenações, de volta ao Planalto em 2023. Defende a agenda que sempre o definiu, com transferência de renda, valorização do salário mínimo e um Estado indutor da economia. O problema é que o Lula de hoje parece perdido. O terceiro mandato foi consumido por polêmicas. A crise do INSS, com descontos indevidos que somaram bilhões em aposentadorias e pensões, derrubou ministro e virou CPMI. O preço dos alimentos continua pesando no prato do eleitor. E as declarações desastradas do presidente, uma atrás da outra, fazem o próprio governo perder tempo apagando incêndio.
A verdade é que Lula deixou de ser um líder de Estado para se tornar um presidente das redes sociais. Criou a "taxa das blusinhas", somente para acabar com ela anos depois. Faltando poucos dias para a votação, aumentou o valor base do Bolsa Família em uma medida totalmente eleitoreira. Mesmo após uma longa carreira política, é difícil entender suas convicções para os próximos ano. A imagem que fica é clara: ele fará o que for preciso para conseguir votos e se perpetuar no poder. Infelizmente, essa decisão deixa o Brasil em segundo plano.
Flávio Bolsonaro (PL)
Senador pelo Rio de Janeiro, foi deputado estadual por quatro mandatos e chegou ao Senado em 2018. É o candidato do bolsonarismo por indicação direta do pai, Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado e está inelegível. Flávio se apoia nessa herança, com uma pauta conservadora nos costumes, discurso duro em segurança e defesa de um Estado menor, e leva Alfredo Gaspar de vice. Mas a herança vem com bagagem. Ele virou uma das figurinhas centrais do caso Master ao admitir que pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai, Dark Horse. O senador nega ter dado ou recebido qualquer vantagem indevida, mas a versão mudou a cada nova revelação, e a Polícia Federal apura o destino do dinheiro. É difícil pregar renovação carregando esse enredo.
Outro ponto importante é observar a mudança no discurso, trazendo um tom mais "amigável". Enquanto o pai era radical, e beirava discursos fascistas, o filho agora se vende como um "bom moço", trazendo até propostas pensadas para beneficiar algumas minorias. Apesar de tudo, toda a campanha política de Flávia ainda é centrada no seu pai, desde o dicurso "Deus, Pátria e Família", até mesmo os santinhos que trazem a figurinha de Jair. De todo modo, é difícil acredtar que essa mudança de comportamento seja algo natural. No fim, me parece que o eleitor que decidiu votar 22, o fez por causa de quem está atrás das grades, e não na frente do debate.
Augusto Cury (Avante)
Psiquiatra e escritor best-seller, aos 67 anos estreia em eleições, com o empresário e ex-deputado Júlio Delgado de vice. Vende-se como a terceira via, dizendo que não é de direita nem de esquerda, e cresceu nas pesquisas depois do primeiro debate, chegando perto dos 10%. Seu plano de governo tem cerca de 200 páginas, com meta de déficit próximo de zero, mudança na escolha dos ministros do STF, um sistema nacional de inteligência para a segurança e atenção à neurodiversidade na educação. Só que tenta pescar dos dois lados e não agrada a nenhum. A linguagem arcaica, de quem parece escrever autoajuda no palanque, afasta o jovem e o mais humilde. E, apesar das páginas, é difícil entender como seria o governo Cury.
Apesar de estreante no cenário político, o pouco tempo mostrou um desreparo, desde ideias absurdas - como usar drones para combater a violência doméstica (de onde ele tirou isso? nunca saberemos), até falar que pode fazer propaganda política em área dominada pelo tráfico porque os criminosos são "fãs" do seu livro. Uma coisa é certa, apesar das minhas fortes críticas a Lula e Flávio, pelo menos eles são fiéis ao seus ideias. Já Cury me parece, na perfeita simetria da palavra, um bananão.
Romeu Zema(Novo)
Empresário do grupo familiar, chegou ao governo de Minas Gerais em 2018 como outsider, foi reeleito em 2022 e deixou o cargo em março para disputar a Presidência, com o senador Eduardo Girão de vice. Sua bandeira é o liberalismo econômico, com Estado enxuto, privatizações e disciplina fiscal. A voz de bom moço, porém, não disfarça o despreparo. Temos aqui um candidato que costuma contornar as perguntas incômodas e pouco expressa uma mudança real. No fim das contas, é mais um que se apoia no bolsonarismo enquanto se vende como liberal.
Há um ditado muito comum no país que fala que "Todo mineiro é gente boa". Zema chegou para mostrar que nem sempre os ditados populares acertam. Nos debates e entrevistas até o momento, mostrou fortes irregularidades, como o gigante aumento salarial dado pra si mesmo, denúncias de corrupção envolvendo o governo de Minas Gerais, e até mesmo políticas que vão contra o liberalismo defendido por ele. O tom sereno não esconde a falta de comprometimento e posicionamento.
Ronaldo Caiado (PSD)
Médico, ex-presidente da UDR, deputado federal por quase duas décadas, senador e governador de Goiás de 2019 a março deste ano, tem o histórico político mais sólido entre os desafiantes. A pesquisa Genial/Quaest de julho apontou seu governo como o mais bem avaliado entre os estados pesquisados, com 87% de aprovação. Migrou do União Brasil para o PSD e tem Gilberto Kassab de vice. Mas, apesar do currículo, já deixou claro em entrevistas e palanques que está ali em nome do "Presidente" Jair Bolsonaro. Prometeu, já no primeiro dia de governo, conceder indulto a Bolsonaro e assinar a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. Diante da inflação de alimentos, da violência e de tantos problemas concretos, me pergunto: isso deveria ser a prioridade do país?
Ao meu ver, Caiado tinha tudo para ser uma verdadeira terceira via, aquilo que Cury se propõe, mas continua preso nos ideais conservadores do Bolsonarismo, atraindo para si tanto fãs quanto críticos. De fato parece ter feito um governo positivo em Goiás, mas a situação agora é bem complexa. Os indíces sociais e econômicos do Estado são altos, então o desafio é menor. Talvez se ele se importasse menos com quem está preso, e mais com as pessoas que constroem diariamente esse país, estivesse maior nas pesquisas.
Renan Santos (Missão)
Aos 42 anos, é o mais jovem entre os principais nomes e o que mais rompe com a política tradicional. Cofundador do MBL, foi peça central do Comitê do Impeachment que levou à queda de Dilma Rousseff e conseguiu uma proeza: fundou seu próprio partido, o Missão, aprovado pelo TSE em novembro de 2025, coisa que nem o bolsonarismo, com toda a máquina pública, conseguiu. Fala a um público rebelde, inconformado com o estado do país, mas é, de todos, quem tem o discurso mais radical. Vai do "prendeu, matou" à defesa de uma bomba atômica brasileira como caminho para a soberania. Juristas lembram que várias dessas ideias esbarram em cláusulas pétreas da Constituição, e o próprio candidato diz que não cumprirá decisões do STF que considere ilegais.
Se isso é positivo ou negativo, fica ao critério do leitor, mas há quem defenda que uma mudança radical pode ser exatamente o que o país precisa. De toda forma, a presença digital de Renan e o seu discurso mais jovem e inflado mostram um perfil que provavelmente fará parte da política nacional por muito tempo, talvez não como presidente.
E então, o que esperar?
Temos uma eleição marcada pela polarização entre dois nomes que carregam índices elevados de rejeição, enquanto o cenário para um eventual segundo turno ainda permanece em aberto. Nesse contexto, os demais candidatos disputam principalmente o voto de um eleitor que demonstra cansaço diante da lógica de escolher não necessariamente quem prefere, mas quem rejeita menos. No fim, é o eleitor, diante da urna, quem vai definir os rumos dessa disputa no dia 4 de outubro.