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“Olha a Jéssica!”: técnica viral para conter birras infantis divide especialistas

Estratégia viral que promete encerrar birras rapidamente levanta debate sobre seus efeitos no desenvolvimento emocional das crianças

Redação
Redação
Equipe Editorial
26 de abril de 2026 - Atualizado em 5 de maio de 2026
Criança chorando - Imagem do Canva
Criança chorando - Imagem do Canva

Uma criança chora intensamente até ser interrompida por um adulto que, com tom misterioso, anuncia: “Olha a Jéssica!” ou “A Jéssica chegou!”. Confusa, ela para de chorar e passa a procurar pela figura desconhecida. A estratégia, que viralizou nas redes sociais como uma solução aparentemente “mágica”, tem gerado debate entre psicólogos e educadores.

Enquanto alguns consideram a prática uma forma lúdica de interromper crises, outros alertam para riscos no desenvolvimento emocional infantil, especialmente na construção da autorregulação.

O que acontece no cérebro da criança

O efeito observado nos vídeos é explicado por um mecanismo psicológico conhecido como redirecionamento de atenção ou distração ativa. Durante uma crise, a criança está imersa em um estado de desregulação emocional e sensorial, sem maturidade cerebral suficiente para processar o que sente.

Nesse contexto, o chamado da “Jéssica” atua como um estímulo externo inesperado, que compete com o turbilhão interno e desvia o foco da criança.

🎭 O poder do imaginário infantil

O sucesso da técnica está diretamente ligado à capacidade dos adultos de criar situações que dialoguem com o universo lúdico da criança.

Essa espécie de “fantasia de emergência” pode ser útil, desde que não ultrapasse limites importantes.

Quando o uso é saudável

  • Criar cenários imaginativos e leves para quebrar a tensão
  • Transformar o momento em algo mais divertido e menos carregado

O limite ético

  • Evitar transformar a figura em ameaça

“Se a frase for ‘se não obedecer, a Jéssica vai te pegar’, entramos no campo do medo. A criança passa a agir por temor, e não por compreender a regra”, alerta a professora Luciene Tognetta.

Os riscos do uso frequente

Apesar de eficiente para interromper crises rapidamente, o uso constante da técnica pode prejudicar o desenvolvimento emocional.

A birra é, essencialmente, a expressão de uma frustração. Para a criança, pequenas negativas têm o mesmo peso emocional que grandes decepções na vida adulta.

Segundo especialistas, os pais devem atuar como um apoio cognitivo maduro, ajudando a criança a compreender o que sente. Quando a distração é a única ferramenta utilizada, essa aprendizagem é perdida.

“Suprimir a birra apenas para aliviar o desconforto dos pais impede que a criança desenvolva tolerância ao ‘não’”, explica o psicólogo Mäder.

O uso excessivo pode levar a interpretações como:

  • “Não posso mostrar quando estou mal”
  • “Minha emoção precisa parar rapidamente”
  • “Alguém de fora resolve meus sentimentos”

Com o tempo, isso pode resultar em:

  • Dificuldade em lidar com frustrações
  • Explosões emocionais em outros momentos
  • Repressão de sentimentos

🛠️ Como agir em cada fase da infância

Não existe uma fórmula única. A recomendação dos especialistas é combinar estratégias de acordo com a idade da criança.

Até 2 anos

  • Estratégia: contato físico, colo e voz calma
  • Objetivo: regular o sistema nervoso e oferecer segurança

De 2 a 5 anos

  • Estratégia: validar a emoção (“eu entendo que você está triste”) e estabelecer limites
  • Objetivo: ajudar a nomear sentimentos e compreender frustrações

Acima de 6 anos

  • Estratégia: diálogo e ensino de técnicas de autorregulação (como respiração)
  • Objetivo: desenvolver autonomia e resolução de problemas

📱 A exposição nas redes sociais

Outro ponto levantado pelos especialistas é a exposição das crianças em momentos de vulnerabilidade. Gravar e compartilhar episódios de birra pode parecer inofensivo, mas levanta questões éticas importantes.

O que é visto como entretenimento por terceiros pode representar um registro permanente de um momento de insegurança, sujeito a julgamentos e possíveis constrangimentos futuros.

O alerta dos especialistas

Luciene Tognetta reforça que, nessa fase, a inteligência infantil é prática e baseada em experiências sensoriais.

“Ao mudar a entonação da voz e direcionar a atenção para outro elemento, o adulto consegue interromper o conflito momentaneamente”, explica.

Apesar disso, o consenso entre especialistas é claro: a técnica pode ser útil de forma pontual, mas não deve substituir o processo fundamental de ensinar a criança a reconhecer e lidar com suas próprias emoções.

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